NÃO ANDO SENTINDO VONTADE…
…De ler nada. Nenhuma linha, de nenhum livro, de nenhum autor em nenhum gênero. Ando me forçando, terminando um romance aqui e um ensaio ali.
Mas o tesão parece que fugiu galopando no pós-formatura.
Pensei que talvez o remédio seja voltar ao começo. Terminarei o ano com Virginia Woolf.
NÃO ESTAVA MUITO EMPOLGADA…
… Com o show da Lady Gaga. Na verdade, estava encarando a experiência mais como uma brincadeira, um dia por vir certeiramente divertido, do que qualquer outra coisa. Gosto de Lady Gaga, gosto muito; tenho os CD’s, conheço as músicas, danço-as sempre apaixonadamente na pista, analiso as significâncias de sua presença no mundo mainstream. Como parte da comunidade LGBTT, sinto-me por ela abraçada, acolhida, representada. Não posso colocar-me diante de Lady Gaga enquanto mulher, pois a própria Gaga não acredita nessa formação. Tudo isto já fazia parte de mim há muito tempo, anos, talvez. Com minha pesquisa se dando no tema em que se dá, Gaga sempre me chamou atenção por incorporar tão naturalmente e de maneira tão abrangente conceitos, teorias e ideias que podem ser lidas em tantos livros sobre gênero e sexualidade que existem nas bibliotecas e estantes de qualquer pesquisador da área.
Acreditei, desde o lançamento do álbum Fame Monster, que não, não estamos diante de somente mais uma diva pop, não estamos diante de mais um produto industrial da música norte-americana; estamos diante de uma estética, de um movimento, de uma mensagem que é dita muito claramente, só não ouve quem não quer (geralmente quem anda engessado nas pré-concepções próprias ou na ideia de que precisamos nos filiar à gêneros musicais específicos e não ceder a nada que cheire a diferença). Estávamos então diante do clipe de Bad Romance, onde Gaga nos dá seus números, nos mostra a força do ícone, e por aí vai. Não se trata de mais uma diva pop enlatada. Então, Gaga começa a atingir ápices da exploração das redes sociais - mas havia sempre algo estranho no ar, não era sua assessoria em seu twitter, o estagiário da produção no Facebook, era ela; uma menina, não tão mais velha do que eu, conversando com fãs, interessando-se por suas vidas, por suas opiniões, por tudo aquilo que eles gostariam de dizer não somente para ela, mas através dela. E ficou claro que não era mais uma diva pop; não era mais Madonna debochando das flores compradas por um fã ou Britney Spears apavorando-se no palco com a mera ideia de que algum de seus fãs aproxime-se verdadeiramente dela.
E, mesmo assim, tendo tudo isto em vista, eu não estava muito empolgada para o show que se deu ontem. A empolgação começou verdadeiramente na fila, com a natural muvuca das multidões, com as pessoas tão elaboradamente fantasiadas e sinceramente felizes por estarem ali. Pensei, então, que realmente veria um show divertido e que meus amigos e eu curtiríamos muito. Pensei que estaria no mesmo ambiente que Lady Gaga e isto seria para se lembrar pro resto da vida: o dia que partilhei uma nuvem e um estádio com Gaga.
Acontece que começou o show e eu não estava partilhando meramente um estádio, uma nuvem e uma multidão com Lady Gaga. Estava partilhando um momento, coisa que ela quis reafirmar o tempo inteiro. Ela estava lá por nós da mesma maneira que nós estávamos lá por ela. Ela, também, estava sinceramente feliz de estar lá. E quando, entre uma música e outra diz: “Não sou mulher (feminino), nem homem (masculino). Quando perguntarem a vocês o que eu sou, respondam que eu sou vocês”. E caiu-se a primeira barreira entre o palco e o público. A partir daí, falou diretamente com a plateia o tempo inteiro, trocava a letra das músicas por “São Paulo” ou “Brasil”, que pronunciava esquisito, mostrava emoção real por ter sido acolhida; fez inflamadas declarações de amor pelo país em que se encontrava. Abriu presentes trazidos pela platéia, emocionou-se e tocou Hair afirmando que não sabia, mas esta música foi feita para os brasileiros.
Fez longos discursos sobre diferença e aceitação. Reafirmou que estávamos lá para sermos livres e que ela estava lá pelo mesmo motivo.
Dizem as reportagens da Folha, Terra, UOL e tantos outros portais, que cinco fãs subiram ao palco. Isto é mentira, se você não estava lá, não acredite no que lê: cinquenta mil pessoas foram convidadas a subir no palco. E subiram.
Estudei em…
…uma escola construtivista durante o começo do primário. Tive dificuldade de me adaptar em qualquer outro colégio por isso. Em escolas construtivistas, as crianças são livres para aprender as coisas de acordo com seu ritmo e métodos próprios. O professor é uma espécie de coordenador do aprendizado e deve atentar aos talentos e dificuldades setorizados de cada aluno, incentivando-os ou preenchendo as lacunas. O objetivo é que cada um desenvolva livremente suas aptidões.
Enfim, na escola estudavam muitos alunos portadores de síndrome de Down, devido ao método liberal de ensino. Os alunos portadores da síndrome mesclavam-se normalmente com os outros alunos. Contudo, tratando-se do ambiente escolar, sofriam discriminações por parte de alguns. No geral, os alunos se dividiam entre aqueles que discriminavam abertamente e aqueles que não pareciam se importar ou simplesmente não viam as diferenças. Eu me encaixava no segundo grupo: não dediquei nenhum tipo de atenção especial aos colegas com Down, mas jamais tive qualquer impulso de discriminá-los.
Um dia, um canal de televisão resolveu fazer uma reportagem sobre “alunos especiais”. Toda uma comoção ocorreu por parte de professores e coordenação; instruíram-nos, os chamados alunos “”normais”“, a tratar especialmente bem nossos colegas “”especiais”” durante todo o dia. Várias atividades mistas foram organizadas para esse fim, enquanto câmeras e uma repórter filmavam e entrevistavam os alunos.
Eu estava em uma sala grande, com diversas turmas, onde fazíamos lições e atividades junto aos colegas. Em um determinado momento, na mesa onde eu estava sentada - câmera rodando e repórter encantada, uma menina oriental de uma turma mais velha fazia lição junto à uma aluna portadora de Down de sua turma, e passava os dedos nos cabelos desta, colocando as mechas caídas atrás de sua orelha. A repórter quase começou a chorar e a diretora estava fora de si de tanta publicidade positiva naquela cena tão singela.
Eu já havia visto a mesma menina oriental discriminar e falar coisas horríveis sobre sua colega. A injustiça daquilo me foi enorme; eu e meus seis anos de idade não conseguíamos conceber tamanha farsa. Resolvi agir.
Em um momento de pausa da equipe de reportagem, me aproximei da repórter e puxei sua saia social para chamar-lhe a atenção. Quando ela me olhou, disse: “Isso aqui é tudo mentira, viu? É tudo encenação. Ninguém trata essas crianças desse jeito.”
As cenas gravadas em minha escola não foram ao ar, ninguém soube dizer porque.
Missão cumprida.
ROUBEI O DIÁRIO…
…da empregada quando era pequena. Logo após a mudança da família para Santos, com minha mãe ainda trabalhando em São Paulo todos os dias e meu pai cuidando dos negócios falidos, se fez necessário que alguém morasse em casa para cuidar de mim e do meu irmão.
O nome dela era Sonete. Lembro pouco, mas lembro que bebia muito e era fascinada pela Xuxa - eu só começaria a beber alguns anos depois e nunca tive afeto pela Xuxa, o que não me dava grandes possibilidades de elo. Mas toda noite eu assistia com ela, em seu quartinho, a minissérie A Muralha. Enquanto assistíamos, Sonete escrevia em um caderno rosa. Nunca me deixava ler, embora me contasse às vezes da sua paixão contínua por um então ex-namorado - Jonas, nome que nunca esqueci. Estes momentos de confidência me causavam grandes explosões; o ato de escutar uma mulher mais velha relatando sua vida privada sempre me dava fogos de artifício no peito. Ou porque eu mesma gostaria de ter uma vida privada a relatar ou porque a porta que se abria naquele ato de enunciação revelava uma vida que, por mais banal, me enchia de fascínio colorido e estalado.
Um fim-de-semana em que ela não estava, meu eu de nove anos decidiu por explorar seu quarto. Não havia nada muito excitante e eu não confessava a mim mesma que o motivo da busca era a procura pelo diário. Mas o encontrei sem esforço, debaixo do colchão - pois é debaixo do colchão que as mulheres mais velhas escondiam seus discursos. E isto eu sabia de forma empírica.
Engoli o diário inteiro, sem nenhum pudor e sem nenhuma culpa cristã. A frase que mais me marcou, por motivo desconhecido, estava em uma passagem sobre uma noite com Jonas na piscina, em que conversavam sobre o que foram. Ali, ela disse: “E aconteceu a primeira trepada do ano, mas não sei se foi comigo que ele estava trepando”. Fui tomada pela euforia que só toma as virgens.
Nunca pedi desculpas pela invasão de privacidade. E confesso até hoje não sentir a tal culpa cristã.
Quem sabe o diário da Sonete não foi a primeira autobiografia feminina analisada que fez o peito queimar. E desta vereda eu não me arrependo.
TENHO UMA CRUSH…
…Muito sincera e muito besta na Ashley Judd. Começou quando eu assisti Beijos que Matam, há dez anos. Nunca se foi.

ABRI UM…
tumblr, sem ser este confessionário, para postar amenidades (ou não): nanadeluca.tumblr.com
Descobri que precisava anestesiar um pouco minha vida virtual.
NUNCA GOZO…
…De manhã. É uma dificuldade imensa - tarefa ardilosa, quase cirúrgica, tudo precisa ser feito de uma determinada forma do momento que os olhos se abrem, um erro e voltamos para o início, como se eu nem tivesse acordado. Tudo da minha parte é lento. Demoro para reagir. Preciso que falem, que me seduzam como se nunca tivessem seduzido, que venha um novo ao mesmo tempo familiar junto com a manhã.
Geralmente desisto ou faço desistirem. Não permito que fiquem tentando, vou eu fazer gozar e isso também é bom.
Percebo que estou diante de uma amante inigualável se, no despertar, ela me faz gozar. É no detalhe dessa façanha que me sinto milimetricamente compreendida, exposta. Amante também.
E é também, nessas manhãs raras em que essas amantes imprevistas aparecem, que eu me apaixono.
ÀS VEZES TENHO…
…Um forte desejo de voltar a ser, como fui antes da faculdade, um dos chamados leitores ingênuos.
Ler solta. Não sei se a teórica nasceu da leitora ou se foi parida por obrigação (com amor, inicialmente, antes da dor - como todo parto).
E também não sei se tem como matar algo que nasceu, de qualquer maneira, tão sem querer.
LOGO DEPOIS DA…
…Mudança para Santos, comecei minha nova escola, na terceira série. Não fiz amizades instantâneas, os colegas de sala me olhavam com desconfiança e as borboletinhas no meu cabelo, depositadas por mim mesma na frente do espelho todas as manhãs, provocavam risos abafados nas meninas. A explicação para as borboletinhas era me dar auto-confiança - pedia para a faxineira que fizesse trancinhas espalhadas e enfeitava todas de cima abaixo com borboletinhas de todas as cores. Admito hoje a breguice, mas a sensação de beleza que me dava senti-las em meu cabelo depositavam em mim auto-confiança suficiente para iniciar o ano letivo em um universo desconhecido.
Um dia, as meninas da sala me chamaram. Yasmin, a porta-voz (ou comandante, não sei dizer) me explicou que todas as meninas da sala mantinham um diário onde escreviam suas confidências e segredos e perguntou se eu não gostaria de participar. Aceitei o convite.
Quando vi, estava em um corredor isolado, rodeada por várias desconhecidas que me fechavam em uma roda. Yasmin abriu um caderno em uma página aleatória, escreveu qualquer coisa sobre nossa professora e me perguntou: “E você? Você gosta de algum menino da sala?”. A pergunta me surpreendeu, não havia pensado sobre nenhum menino da sala. Mas, para não parecer idiota, respondi: “Do Pedro Aly”. Pedro tomava o ônibus escolar comigo e tínhamos feito breve contato nessas ocasiões. Era bonito e foi o primeiro nome que me veio. A movimentação a seguir foi muito confusa, mas antes que eu pudesse me dar conta, todas as meninas corriam e eu estava sozinha com o caderno no chão. O fechei e corri atrás delas, que riam maldosamente, gritando que contariam ao Pedro.
Ele estava jogando futebol. Elas o tiraram do jogo, aos berros: “Pedro, a menina nova gosta de você!”. Riam sem parar. Pedro me olhou e deu de ombros, indiferente à situação. Elas ainda riam. Dei meia-volta e me direcionei ao banheiro, chorava de ódio. Lá, arranquei todas as borboletinhas do meu cabelo. Azuis, vermelhas, douradas, verdes, transparentes, amarelas, roxas e laranjas. Desfiz as trancinhas com violência. Chorei tanto que ligaram para minha mãe. A única explicação que eu dava, aos berros: “Odeio essa cidade!”.
E foi o fim de qualquer vestígio de qualquer Naná que usasse borboletas nos cabelos.
QUANDO FAÇO FRITURAS…
…Deixo minha mão bem perto da frigideira. Gosto de sentir as gotinhas de óleo quente queimando partes mínimas de mim.
UM MENINO CHAMADO PAULO…
…Era um dos poucos colegas com quem tinha qualquer vínculo no ginásio. Alto, gordo, repetente e daqueles moços que fazem todo tipo de bobagem na escola. Nenhum professor o levava muito a sério. Eu mesma não o levava muito a sério, mas me divertia com seu humor, por vezes. Paulo era mestre em fazer coisas nojentas. Quando estava apaixonado por uma menina, se masturbava no banheiro do colégio no intervalo e levava um papel higiênico cheio de porra até a moça objeto de paixão, dizendo que aquilo era pra ela. Vê-se logo que era mais fácil ser amiga dele do que não ser.
Um dia, depois da aula, tínhamos que fazer um trabalho. Convinha para ele, também, ser meu amigo: eu era boa aluna. Resolvemos fazer o trabalho em seu apartamento, perto da escola.
Em um determinado momento, Paulo me disse que estava com tesão. Ignorei a constatação. Perguntou, depois, se eu não queria trepar com ele. Eu disse que não, sinto muito. Disse que queria trepar e sabia que eu fazia isso (eu era vítima de todo tipo de boato que pudesse envolver sexo) ao que respondi que não, não iria trepar com ele. Nervoso, disse que ia se masturbar na minha frente. Respondi, desafiando, que pra mim tanto fazia.
Assisti aquele moço se masturbar como quem assiste um filme intrigantemente ruim. Não posso dizer que a situação me foi marcante, mas foi a primeira vez que senti o meu imenso desapego ao ato sexual quando nele não está envolvido qualquer pacote de sentimentalismo. Me percebi, pela primeira vez, capaz do sexo pelo sexo, do desapego. Assisti-lo gozar foi vazio, algo que aconteceu simplesmente, como poderia ter sido um vazo que quebra sem querer ou um refrigerante que caí e mancha o sofá, e me excitou, sim, todo esse vácuo, como o vazo quebrado ou o refrigerante caído provocariam reações também. Me excitou e não porque dele eu gostava, mas porque por ele eu não sentia nada e mesmo assim ele gozou na minha frente.
Só mais tarde me descobri plenamente capaz de fazer sexo e sentir o ato como quem assiste um filme intrigantemente bom ou ruim. A busca, acredito, se tornou pelas amantes que assim não o façam.
OUÇO…
…Leandro e Leonardo quando estou bêbada. Aquela música: Cumade & Cumpade. E danço na cadeira.
PARA FALAR A VERDADE…
…Na primeira vez que apresentei minha pesquisa, estava me sentindo como a Susan Boyle.

